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Archive for the ‘Indecisas’ Category

Por Conta do Horóscopo

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Fernanda Torres no filme Casa de Areia

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Bom, doutor, é o seguinte: amo a um, vivo com outro e desejo um terceiro. Isso tudo me bloqueou e eu não consigo mais trabalhar.

Há cinco anos, todos os dias, escrevo horóscopos no jornal. Não, não sou astróloga, vidente, mãe de santo, nada disso. Gosto mesmo é de inventar histórias e imaginar a cara de quem as está lendo. Então, um dia, escrevo uma mensagem triste e, no outro, uma mais alegre, assim o leitor valorizará mais os bons momentos. É isso que acontece comigo e, acho, com todo mundo, né?

Eu amo tanto o Aristides, doutor, mas tanto, tanto, que a gente não sabe conviver. Somos como cão e gato e, ainda por cima, fica todo mundo falando que um dia a gente casa! Casa, nada! E, se casar, é bem capaz de um matar o outro. Ele agora resolveu fazer que não me vê. Deve ser porque descobri que ele estava de caso com uma sambista lá da vila. Aí, o senhor acredita que eu escrevi no signo dela que seria traída e ainda mandei o jornal de presente? No dele — que é ariano, o desgraçado — disse que cometeria uma grave traição por ser incapaz de ser fiel. Ah! Quando ela leu as previsões, casou as informações e mandou o Aristides embora. Agora, ele acha que a culpa foi minha! Quem manda querer me fazer de besta e arrumar uma mulher que crê em horóscopo?!

Com o Genival, é diferente. Ele faz tudo o que eu quero, me enche de mimo e agüenta as bordoadas. É isso mesmo, doutor, não sou mulher de dar mole pra homem não. Toda mulher tem mais é que judiar do cabra, quando tem oportunidade. Não tenho culpa do trouxa da vez ser o Genival, coitado! Minto tanto pra ele que, às vezes, até me esqueço do que inventei e ele percebe. Mas sempre dou um jeito de contornar a situação e invento outra história melhor, ele acaba se sentindo mal por ser tão ciumento e desconfiar de uma mulher direita como eu. Também escrevo umas coisas legais no signo dele, principalmente quando percebo que ele anda meio desconfiado. Peço que confie na pessoa amada e essas baboseiras todas. O mosca-morta nem imagina que sou eu quem escreve tudo aquilo, e, como não gosta muito dessas previsões (tem vergonha, só porque nasceu Touro, coitado, né?!), só lê o horóscopo quando insisto muito.

Quando arrumei esse emprego, o Aristides foi comigo, a gente estava nos bons tempos do começo, e ele me recomendou que não contasse a ninguém, senão iam saber que é tudo mentira. Todo mundo pensa que eu trabalho no telemarketing, sabe? Só o traste do Aristides sabe a verdade.

Ah, doutor, o pior de tudo é que o Paulão apareceu. Ele faz parte do meu passado, entende? Namoramos quando eu era meninota, tinha 18 anos, e o Paulão, 30. Ele me fez mulher, desabrochei pra vida e agora, depois de dez anos, a tentação reapareceu! Tenho dó é do Genival, porque o coitado tá levando uns chifres na testa. Mas não consigo resistir ao Paulão, doutor, mulher nenhuma consegue, não há meio. O homem é grande, bonito, cheiroso, Ave Maria! Dei até pra escrever no horóscopo dele, que é escorpião, que ele vai voltar com um antigo amor. Nem sei se ele lê ou acredita nessas coisas, mas vai que… né?!

Não é que ele me mandou de presente uma calcinha de renda vermelha? Genival quase enfartou! Tive que dizer que era brincadeira das meninas lá do call center. O Genival queria que eu a usasse com ele! Como?! Antes do Paulão, doutor?! Tive que sair com Paulão de emergência, numa terça-feira à tarde, pra poder usar a calcinha primeiro com ele. Meu Deus! Fiquei boazuda com aquela calcinha, o senhor precisava ver! O azar é do Aristides, aquela mula que inventou de empacar e não me dar bola!

Então, esse é o motivo pra eu estar aqui. O único jeito de resolver tudo isso é sair desse emprego. Assim, continuo com meus homens, fico mais concentrada neles e não preciso ficar dando conselho pra essa mulherada desocupada, que fica lendo horóscopo no jornal.

Agora, doutor, veja aí minhas contas que vou embora. Não quero mais trabalhar aqui não, até porque o Genival não quer que eu ande com as meninas desse lugar, por causa da história da calcinha vermelha. Ele me disse que vai me pagar uma mesada só pra eu cuidar da casa! O Paulão não se agüenta de tanta alegria.

O Aristides, aquele ordinário, tá com ódio de mim e não quer mais que eu escreva horóscopos, senão ele não arruma mais namorada.

Tá vendo, doutor, como meu problema é esse emprego?!

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Samantha Abreu

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Inconstância Feminina

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foto: Katarina Sokolova

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Eu já sacava logo: não vai dar certo não…

O cara usava meia branca, com calça jeans e sapato social. Eu sentia aflição todas as vezes que ele aparecia. Tinha um papo legal, sabia falar de música e cinema e isso era bom, mas quando eu olhava para o pé, queria morrer. Não deu pra continuar. Cheguei pra ele e disse: “Beto, não estou preparada para algo mais, e preciso de um momento pra mim.” Ele ficou com cara de tacho, parado por uns 2 minutos me olhando, sem saber o que dizer. Mas eu só fui sincera! Sentia que não ia rolar…

Aí, conheci o Cadú e cai de amores. Era bonito e engraçado, do jeito que eu queria. Saímos umas três vezes e ele disse que queria namorar. Foi nesse momento que percebi. Ele falava muita coisa errada, até me mandou uma mensagem dizendo que gostava do meu ‘geito’, com g. Pensei: “isso é preconceito lingüístico, o cara gosta de você, sua boba!”. Mas eu tinha vontade de sair correndo todas as vezes que ele abria a boca. Não tinha mais assunto para bate papos, não suportava mais a convivência, nem por algumas horas. Chamei-o em casa e soltei: “acho que não temos afinidades, somos muito diferentes e é melhor deixarmos como está para não sofrermos depois”. Ele foi um pouco rude, dizendo que eu era muito fresca e estava querendo escolher demais. Disse até que eu nem era tão especial assim e, por isso, devia ser mais humilde!

Meu Deus, e o meu direito de escolha?

Agora, a desgraça aconteceu, mesmo, quando me envolvi com o Arnaldo. Aí entrei em crise. Ele me parecia tão perfeito que até tive medo. Tinha estilo, personalidade e sagacidade. Minhas qualidades prediletas. E esse foi o problema. A cada dia que passava, eu notava mais aproximação entre a gente e ia me apegando mais. Isso era aterrorizador para uma mulher como eu. Além de adorar variedade, eu não suportaria atrelar minha vida a alguém e ter que deixar toda minha comodidade e liberdade da vida avulsa.

Ficamos juntos alguns meses e, quando percebi que estava incriminada até o pescoço, sentei ao lado dele e disse: “Arnaldo, quero dizer que gosto muito de você. Mas, tenho uma visão muito prática e vejo longe em meus relacionamentos. Sinto que não vai dar certo, porque somos parecidos demais e não quero…”. Ele me interrompeu com um intenso ar de ironia: “Minha filha, sem essa. Você não sabe de nada e, me faça um favor, vai estudar astrologia… seu negócio é bola de cristal”. Deu-me as costas e, dessa vez, eu é que fiquei estática, com a boca aberta, pasma.

Sabe de uma coisa? Os homens não respeitam a gente. Não temos direito de sermos exigentes, de sermos seletivas e, muito menos, de dizermos a verdade…

Do jeito como ele falou, até parece que o problema é comigo!

Samantha Abreu

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