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Archive for janeiro \26\UTC 2008

No Salão ou no Circo…

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foto: Ellen von Unwerth
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– Ah, menina, você viu como elas são legais?! Eu a-do-ro aquele salão.

– Humm…

– Só tem mulher bonita, rica, charmosa. Pessoas que nos fazem bem ter por perto, sabe, prima? Eu te disse, não disse? Penso em te trazer aqui des-de quando você disse que viria. Eu sa-bia que você ia amar. Dá pra gente marcar de novo pra semana que vem. Aí, você faz as unhas.

– Mas eu mesma prefiro…

– Nem-pen-se nisso! Uma mulher de glamour ja-mais pinta as próprias unhas. Salões de beleza foram feitos pa-ra isso. Manicuras estudaram a-nos e a-nos pra tirar cutículas como as minhas e daquelas mulheres que você conheceu lá.

– Beth, mas minha vida não é…

– É-sim. Pense positivo, Lucinha. É-sim. Você é uma mulher rica, chique, e pre-ci-sa freqüentar salões daquele nível. São pessoas de classe e requinte. Vão te convidar pra festas ma-ra-vi-lho-sas.

– Ah, tá. Agora fiquei muuuito interessada. Ah, por favor, Beth!

– Oras! Quem sabe você conhece um suuu-per cara. Lindo, educado e com muita grana pra te comprar jóias e roupas.

– Grana pra ter estudado também, né? Porque, pelo amor de Deus, ô mulherada burra e vazia, hein!

– Você não sabe de-na-da, prima. Todas estudaram fora.

– Sei… gastaram grana lá fora, você quer dizer.

– Que pensamento de po-bre!

– Pá-ra de falar pausado comigo. Isso me ir-ri-ta.

– Tudo te ir-ri-ta. Até tirar a sobrancelha te irrita.

– Não, o que me irritou foi aquele cara ficar falando sem parar em cima da minha cara. Falando, falando, falando.

– Ele é um lu-xo! Até Gretchen depila com ele.

– À puta-que-pariu aquela Konga. Era só trocar o K pelo E-ME e ela poderia ser a mulher barbada!

– Genteeemm!

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.Samantha Abreu 

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Sub-Missão

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foto: Ellen von Unwerth
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Sou mulher submissa como minha mãe, minha avó e todas as minhas antepassadas. Tradição é tudo, gente! Detesto mulheres que inventam de querer trabalhar fora e conquistar o mundo. Essa de querer pagar as próprias contas serve pra mulher que nunca experimentou o que é depender de um homem. Homem de verdade, estou dizendo, hein.

Arnaldo é meu homem de verdade. Paga minhas calcinhas de lycra, meus cremes da Avon e em todo aniversário ele me dá um presente caro. Ano passado ganhei uma máquina de fazer pão. Ele pensa tanto em mim que sempre procura facilitar meu esforço. Por isso, quando ele volta do trabalho estou sempre cheirosa e preparada para recebê-lo, de janta posta e prato feito. Sou o orgulho da minha família. Corro o dia todo pra deixar tudo do jeito que ele gosta e as almofadas prontas para aconchegá-lo no sofá, depois de um cansativo dia de trabalho. Coitado, ele chega sempre exausto!

Não tenho do que reclamar. Acordo todos os dias bem cedo, antes do Arnaldo, para preparar o café da manhã. Ele não pode sair sem comer, de jeito nenhum! Logo que ele vai trabalhar, eu inicio os afazeres da casa, começando por lavar as roupas. No tanque, obviamente. Prefiro lavá-las a mão para que não esgarcem ou estraguem os colarinhos das camisas do meu marido, que é sempre tão caprichoso na forma como se veste.

Quando as crianças acordam, ajudo-as com as tarefas da escola, pois o Arnaldo não aceita que elas tenham nota baixa. Deus me livre disso acontecer, Arnaldo me mata! Então fazemos juntos os deveres, pacientemente. Depois, faço o almoço, elas comem e vão para a escola. Passo o resto do dia atarefada com a limpeza e com a faxina. Fico até emocionada quando falo disso!

Ao final da tarde, quando as crianças voltam, me apresso em arrumá-las para que não atrapalhem o Arnaldo. Ele detesta esperar para tomar banho. Troco as toalhas, pois a dele tem que ser lavada e macia, todos os dias. Meu marido é tão asseado! Fico até orgulhosa! Só é uma pena porque depois que ele chega eu não posso ver televisão. Ele reclama que eu converso durante os programas e o atrapalho. Por isso, tenho que ficar no quarto enquanto ele se atualiza com os jornais. Mas é bom porque me adianto em algumas costuras, bordados e já o espero na cama para nossa noite de amor.

E assim me sinto mulher. Por inteiro.

Arnaldo, sim, é homem de verdade! Não é desses que permitem mulher independente, não. Por isso que essa mulherada está aí, perdida, com a cabeça virada.

Não se faz mais homens como antigamente. Homens que mandavam na gente, simplesmente.

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Samantha Abreu

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