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Archive for outubro \25\UTC 2007

Me and Myself

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foto: Ellen von Unwerth

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Porque ele a convenceu de que era louca, resolveu procurar a tal clínica.

É bonito esse lugar, assim bem tranqüilo e, mesmo que eu não tenha problema algum, aliás, penso que deve ser história desse povo desocupado, posso fazer de conta que tô em férias. Ai, aquele emprego tá mesmo me matando, tô cheia de relatórios pra fazer, será que vai demorar muito essa consulta? Moça, dá pra ver se o doutor me atende com prioridade, por favor? Se ela soubesse como ando cheia de coisas. A casa tá uma bagunça e ainda tenho que passar pra comprar o vaso que aquele palhaço quebrou. Nossa, agora me lembrei que ele ainda nem tirou tudo lá de casa. E se ele for lá agora à tarde? Vou ligar pra Arlete, ela que deixe ele entrar, pra ver uma coisa… Ah, não me tirem do sério, gente. Já tô aqui nessa clinica não é a toa. Arlete, o Chico passou por aí? Não deixe ele entrar, hein, Arlete! Não deixe! Eu não autorizo. E cuida de tudo, tchau. Ai, meu Deus! Quanto tempo será que ainda vai levar isso aqui? Nossa… que vaso seco, será que não tem uma mulher capaz de jogar água nessa planta, gente! Já são duas horas e eu vou atrasar no almoço de novo. Depois, quando volto, aquele boçal fica pedindo satisfações. Trabalho mil vezes mais do que ele e quer me cobrar alguma coisa, só porque sentou aquela bunda numa cadeira importante. Eu mereço, mesmo. Quando chegar, preciso lembrar de ligar pra Cristina e marcar meu horário, esse cabelo tá vergonhoso, pelo amor de Deus. Ninguém mais dá jeito nisso. Oi, moça, será que o doutor demora? Tô com o horário apertado. Vê isso pra mim? Obrigada! Detesto ter que sorrir quando tô com raiva, fica essa boca congelada aqui. Será que a pessoa percebe? Deve ser muito feio. Eu nunca percebi ninguém se obrigando a sorrir pra mim, sempre me fazem cara feia. Não ligo também, não vim ao mundo a passeio. Boa tarde, doutor, como vai? Posso sentar? Eu não estou muito bem, não. Veja, ando conversando demais comigo mesma, doutor, às vezes, até esqueço que o mundo é cheio de gente. E sabe o que é pior? Eu me faço perguntas e eu mesma me respondo. Não consigo tomar uma decisão sem me consultar antes. Ficamos horas em discussão, eu e eu mesma. Não tá dando mais. É isso mesmo, vou dizer bem assim pra ele, vai parecer mais claro, senão, como vou explicar essa maldita conversa? Posso falar que falo sozinha! Mas eu não falo sozinha, ninguém escuta o que tô pensando… mas é claro, né Clarice, se você está falando sozinha, ninguém precisa escutar. Ah, que saco ter que explicar uma coisa dessas.

Já sei, vou embora! Não, não vou mesmo, agora já estou aqui. Mas está demorando e prometo não discutir mais, se você ceder em algumas coisas. Em quê, por exemplo? Quero fazer amor de quatro. E eu com isso? Pode fazer! Ah, mas como faço isso à vontade se você não pára de me chamar de vaca? Não consigo me sentir bem dando de quatro com alguém me chamando de vaca. É, sei bem, mas quando ele te chama de cachorra você gosta. E daí, cada uma na sua. É… então, como ficamos? Se formos embora você me deixa em paz na hora H? Mas eu vou querer uma coisa também: chupar sorvete todo dia. Ah, nem a pau! Aí eu que engordo! E você acha que é só a sua bunda que dói naquela hora?

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Samantha Abreu

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foto: Ellen von Unwerth

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– Pois quando cheguei à festa, já tava todo mundo daquele jeito… caindo pelo cantos.

– E por que você não foi embora de lá? Tá cansada de saber como são essas festas.

– Ah, tinha homem bonito pra burro, cara!

– Mas você não pode ver um pau, que quer logo pendurar. Como é que pode?

– E você? Sem essa de lição de moral. Pra mim, não cola.

– É, mas pra ficar plantada aqui nessa sala de espera com você eu presto. Pra te falar umas verdades, não.

– A Pity pegou cinco caras. Saiu de lá com três.

– Tomara que não fique grávida também.

– Não fala isso. Também, não. Eu não estou. Pensamento positivo. Vamos lá… pensamento positivo.

– Olha a moça aí.

 

– Obrigada!

– Abre logo essa coisa. Tire esse sorriso da cara!

– Espera, vamos rezar.

– Que rezar o quê. Você não aprontou? Agora, deixe Deus em paz.

– Ai, tá bom. Vamos lá… Ai, Ai, Ai… Putaquepariu! Putaquepariu!

– Minha nossa, você tá ferrada, Nega!

– Ai, Ai, Ai!

– Liga pro cara! Vamos contar pra ele.

– Pois é, mas ainda não te contei o pior.

– Nossa, até me arrepiei.

– Tinha tanta luz colorida que eu não consegui ver a cara dele!

– Como assim? Co-mo as-sim??? E agora, vai pedir pensão pra quem?

– Ah, vou processar o dono da festa!

-… comé que é?!

– Eu podia ter ficado cega! Oras!

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Samantha Abreu

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foto: Ellen von Unwerth

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– Só se for de luz apagada.

– Mas eu quero te ver, vem cá…

– Ver o quê? Você tá louco?

– Eu amo você assim…

– Nem vem! Depois fica andando aí pela rua, olhando pra tudo quanto é rabo de saia. Você pensa que essa mulherada é bonita por debaixo da roupa? Que nada! Podem ser magras, mas é enchimento pra tudo quanto é lado.

– …

– Sabia que tem um sutiã que aumenta o peito? É feito de gel. Isso quer dizer que, mesmo que você apalpe a garota, você nem vai desconfiar que é falso.

– Ah, vem cá…

– Por isso que elas fazem sexo de luz acesa. Quando tiram a roupa não têm nada além de um monte de osso. Isso quando não tem pele caída, porque gordinha quando inventa de emagrecer…  Mas aí, o cara já tá numa arapuca mesmo… o que importa a luz, né?

– Para de falar um pouco, amor.

– Você bem que podia me pagar aquela lipo. Imagina só… agora, eu deixava a luz acesa e, se você quisesse, dançava pra você.

– Dança pra mim?

– Nem a pau! Tô parecendo uma lutadora de sumô!

– Deixa de ser exagerada.

– Exagerada? Aposto que você fica o dia todo imaginando aquelas vacas do escritório peladas. Eu reparo quando tem churrasco e a tal da Dani vai com a menor blusa que tem no armário, só pra se mostrar. E você não tira o olho.

– Do que você tá falando, meu Deus?

– Ah, sem graça! Pensa que eu sou boba?

– ….

– É não tem nem o que dizer mesmo!

– Tenho sim. Apague a luz, querida.

– Tá bom, assim eu quero.

– Apague essa luz porque me deu sono. Vou dormir.

– Mas…  

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Samantha Abreu

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