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Archive for novembro \30\UTC 2007

Última Chance

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Foto: Ellen von Unwerth

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         Não senhor, não quero deitar nesse sofá. Prefiro assim, em pé. E também, tem outra: o que quero falar é coisa rápida. Pá-Puf. O senhor me diga logo o que significa isso que estou sentindo porque, senão, eu mato aquele desgraçado. Deu pra entender, doutor? A vida daquele crápula está em suas mãos.

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         O quê? Eu nunca fiz isso. Ele inventa essa história todas as vezes que alguém pergunta sobre minhas atitudes. Olhe pra mim, doutor, o senhor acha que eu, uma mulher séria, ia fazer escândalo no meio da rua? Só por que ele resolveu, de um dia para o outro, que não quer mais a vida comigo? Não fiz isso não! Mentira dele. Se bem que não seria nada mal fazê-lo passar vergonha uma vez na vida, pra ver se ele toma um pouco na cara.

         Ah, doutor! Ele fala isso pra todo mundo! Aposto que disse também que eu quebrei as janelas da nova casa onde ele está morando, não disse? Está vendo, eu sabia! Ele conta só a parte que interessa. Veja, não foi bem assim. Eu só joguei aquela pedra porque vi uma sombra lá dentro e tenho certeza que era de outra mulher. Aposto que era!

         Como assim “o que tem demais”? Homem que é meu eu não divido não, doutor! É, a gente já estava separado sim, mas ainda existia amor. Só da minha parte? Foi ele que disse isso para o senhor, doutor? Ele vai continuar negando que me ama? Ah, ele pensa que engana quem? O senhor acreditou? Que ótimo! E eu vou confiar em quem agora?

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       Bem, esse papo não vai dar em nada. Eu lhe dei a chance de salvar aquele cretino. Já que ele não admite, vou cortar a língua e o pinto daquele filho da mãe. Depois disso, quero ver se ele continua negando que me ama. E quero ver se vai conseguir amar outra.

         E a culpa vai ser sua, doutor.

         Passar bem.

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Samantha Abreu

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Por Conta do Horóscopo

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Fernanda Torres no filme Casa de Areia

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Bom, doutor, é o seguinte: amo a um, vivo com outro e desejo um terceiro. Isso tudo me bloqueou e eu não consigo mais trabalhar.

Há cinco anos, todos os dias, escrevo horóscopos no jornal. Não, não sou astróloga, vidente, mãe de santo, nada disso. Gosto mesmo é de inventar histórias e imaginar a cara de quem as está lendo. Então, um dia, escrevo uma mensagem triste e, no outro, uma mais alegre, assim o leitor valorizará mais os bons momentos. É isso que acontece comigo e, acho, com todo mundo, né?

Eu amo tanto o Aristides, doutor, mas tanto, tanto, que a gente não sabe conviver. Somos como cão e gato e, ainda por cima, fica todo mundo falando que um dia a gente casa! Casa, nada! E, se casar, é bem capaz de um matar o outro. Ele agora resolveu fazer que não me vê. Deve ser porque descobri que ele estava de caso com uma sambista lá da vila. Aí, o senhor acredita que eu escrevi no signo dela que seria traída e ainda mandei o jornal de presente? No dele — que é ariano, o desgraçado — disse que cometeria uma grave traição por ser incapaz de ser fiel. Ah! Quando ela leu as previsões, casou as informações e mandou o Aristides embora. Agora, ele acha que a culpa foi minha! Quem manda querer me fazer de besta e arrumar uma mulher que crê em horóscopo?!

Com o Genival, é diferente. Ele faz tudo o que eu quero, me enche de mimo e agüenta as bordoadas. É isso mesmo, doutor, não sou mulher de dar mole pra homem não. Toda mulher tem mais é que judiar do cabra, quando tem oportunidade. Não tenho culpa do trouxa da vez ser o Genival, coitado! Minto tanto pra ele que, às vezes, até me esqueço do que inventei e ele percebe. Mas sempre dou um jeito de contornar a situação e invento outra história melhor, ele acaba se sentindo mal por ser tão ciumento e desconfiar de uma mulher direita como eu. Também escrevo umas coisas legais no signo dele, principalmente quando percebo que ele anda meio desconfiado. Peço que confie na pessoa amada e essas baboseiras todas. O mosca-morta nem imagina que sou eu quem escreve tudo aquilo, e, como não gosta muito dessas previsões (tem vergonha, só porque nasceu Touro, coitado, né?!), só lê o horóscopo quando insisto muito.

Quando arrumei esse emprego, o Aristides foi comigo, a gente estava nos bons tempos do começo, e ele me recomendou que não contasse a ninguém, senão iam saber que é tudo mentira. Todo mundo pensa que eu trabalho no telemarketing, sabe? Só o traste do Aristides sabe a verdade.

Ah, doutor, o pior de tudo é que o Paulão apareceu. Ele faz parte do meu passado, entende? Namoramos quando eu era meninota, tinha 18 anos, e o Paulão, 30. Ele me fez mulher, desabrochei pra vida e agora, depois de dez anos, a tentação reapareceu! Tenho dó é do Genival, porque o coitado tá levando uns chifres na testa. Mas não consigo resistir ao Paulão, doutor, mulher nenhuma consegue, não há meio. O homem é grande, bonito, cheiroso, Ave Maria! Dei até pra escrever no horóscopo dele, que é escorpião, que ele vai voltar com um antigo amor. Nem sei se ele lê ou acredita nessas coisas, mas vai que… né?!

Não é que ele me mandou de presente uma calcinha de renda vermelha? Genival quase enfartou! Tive que dizer que era brincadeira das meninas lá do call center. O Genival queria que eu a usasse com ele! Como?! Antes do Paulão, doutor?! Tive que sair com Paulão de emergência, numa terça-feira à tarde, pra poder usar a calcinha primeiro com ele. Meu Deus! Fiquei boazuda com aquela calcinha, o senhor precisava ver! O azar é do Aristides, aquela mula que inventou de empacar e não me dar bola!

Então, esse é o motivo pra eu estar aqui. O único jeito de resolver tudo isso é sair desse emprego. Assim, continuo com meus homens, fico mais concentrada neles e não preciso ficar dando conselho pra essa mulherada desocupada, que fica lendo horóscopo no jornal.

Agora, doutor, veja aí minhas contas que vou embora. Não quero mais trabalhar aqui não, até porque o Genival não quer que eu ande com as meninas desse lugar, por causa da história da calcinha vermelha. Ele me disse que vai me pagar uma mesada só pra eu cuidar da casa! O Paulão não se agüenta de tanta alegria.

O Aristides, aquele ordinário, tá com ódio de mim e não quer mais que eu escreva horóscopos, senão ele não arruma mais namorada.

Tá vendo, doutor, como meu problema é esse emprego?!

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Samantha Abreu

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Tempero Pronto

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Salma Hayek, por Hellen von Unwerth

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Sempre fui alvo de pessoas que falam coisas sem pensar. Fazem isso sempre com as melhores das mais diabólicas intenções, tentando não me magoar. Pois bem, falar é fácil e as pessoas não têm idéia das atrocidades que cometem quando opinam e aconselham sobre a vida alheia. Ele, principalmente, acha que sou sensível demais e até um pouco birrenta, mas não sei não, à essa altura, com todo mundo achando que as mulheres devem ser modelos de sobriedade e autocontrole, eu sou mesmo uma santa.

Desde o começo de namoro, ele ficou a par de toda a minha história de vida e problemas traumatizantes da infância. Agora vem me dizer que preciso ser diferente. Meu Deus! Com 43 anos não se muda de personalidade, nem de costumes! Ele trouxe até a irmã para tentar ajudar com meu ‘problema psicológico’. Isso tudo só porque tenho o hábito de temperar a comida com tempero pronto, me recuso a usar cebolas. Ele e a família, todos psicólogos de nascença, acreditam na superação desse trauma. Quando vejo a irmã dele entrar, meu corpo treme incontrolavelmente. Em minha cabeça vozes vociferam os mais profanos palavrões, inclusive, alguns que eu nem sei o que significam, mas de maneira elegantemente irônica viro para ela e solto: – De novo, Luíza? Já disse ao Rubem para não te incomodar com isso! Ela faz a maior de todas as tentativas para se aproximar e explicar que preciso de ajuda, não só pelo fato de odiar cebolas, mas pelo significado disso para mim.

Então tá, vou explicar: quando eu era criança, tinha péssimos hábitos alimentares, aliás, como a maioria das crianças. Meu pai me ameaçava com um cinto, me fazendo comer toda a cebola da salada. Mais tarde, na adolescência, minha mãe foi morta por assaltantes quando saía do supermercado e tinha nas mãos um pacote de cebolas. Desde então, as cebolas vêm me acompanhando pelos piores momentos da vida. Por isso, Rubem e toda a sua família acham que guardo uma arquitetura de traumas devido aos episódios com as cebolas.

Enquanto Luíza derrama toda sua explicação filosófica para tentar me salvar da tal perdição enlouquecedora, eu pratico um dos meus exercícios favoritos: converso comigo mesma. Faço planos para o fim de semana e penso nas contas à pagar. Às vezes, olho para ela e vejo sua boca mexendo sem parar, como se estivesse dentro de uma televisão no mudo. Não escuto nada.

O que Rubem e sua corja não entendem é que não estou nem aí para as tais cebolas. Não uso por pura vaidade. E, de fato, quando ele insiste, me deixa profundamente irritada. Mais importante do que a aversão às cebolas, e que eles não percebem, é que tenho apenas um defeito quase genético: sou patologicamente incapaz de agüentar merda de quem quer que seja.

Nesse momento estou no limite da minha tolerância, enquanto Luiza continua a falar descontroladamente. Se ela imaginasse o grau de ebulição do vulcão que existe dentro de mim, pararia imediatamente. Assumo um ar sombrio e tempestuoso que ocupa todo o meu rosto como se eu tivesse acabado de descobrir asas de barata do meu sanduíche. Volto para ela com os olhos faiscando e riscando o ar com uma só expressão: fo-ra da-qui!

Luiza – interrompo, a deixando boquiaberta – já li quase todos esses livros: a grande busca pelo significado da vida, para qual história minha família me encaminhou. Sei de tudo isso e não ignoro totalmente, apesar de algumas atitudes recentes demonstrarem o contrário. Agora peço desculpas, mas estou de saída e é urgente.

Sem maiores explicações saio da sala, enquanto ela se debate no sofá e penso: agora sim me despedi da minha derradeira imagem de pessoa elegante e equilibrada. Sou uma destruidora. Anarquista. Hooligan. Selvagem. Bruxa. Na realidade uma terrorista, o que por dentro me traz uma gostosa sensação de contentamento.

Sei o que irão avaliar agora. Vão me depreciar com coisas do tipo: não sou confiável, sou imprevisível, propensa a acessos espontâneos de ironia, irresponsável, rabugenta. Vai ser o discurso habitual para acabar comigo. E para falar a verdade, senti mesmo vontade de avançar em sua garganta até o sufocamento. Depois, iria como sombra de Rubem ao funeral, surpreendendo a todos atrás do meu óculos Calvin Klein, com um erguer tumular de sobrancelhas significando ‘isso foi só um aviso’. Mas só o fato de me ver livre de sua dissertação psicanalítica das cebolas já enche de sol o meu coração e, em estado de graça, vou dançando e saltitando pelas lajotas da garagem até onde deixo meu carro. Depois disso, logo pela manhã, estou ansiosa por um cansativo dia de trabalho. Compreendo inteiramente que Rubem e sua família sintam as mais sofridas emoções humanas, mas há limites: meus intestinos simplesmente não conseguem mais suportar. Claro que o que realmente quero fazer é socar os malditos, arrancar os cabelos, berrar muito e arranhar a cara deles até que ficarem esfolados vivos. Talvez assim, me digam por que estão fazendo isso comigo e com as drogas das cebolas!

Trabalho o dia todo pensando nesses atos insanos de esquartejamento. À noite, chego em casa à tempo de cozinhar o jantar e, mais uma vez, me nego a usar cebolas.

Rubem aparece à porta e sinto no ar sua respiração. Quando começa a abrir a boca para me dirigir a palavra viro em sua direção com uma enorme faca apontando-lhe o corte e berro:

– Não vou usar cebolas porque elas me fazem chorar! E che-ga!

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Samantha Abreu

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Conto baseado no livro “Viciada em Feng Shui”, de Brian Gallagher.

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