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Archive for the ‘Complexadas’ Category

Sweet Pimenta

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foto de Ellen von Unwerth
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– E essa aqui?

– Ah não, essa não combina com a minha.

– Ah, meu Deus! Pode parar!

– É que uma vez namorei um cara que só usava cores fortes. Aí eu, pra equilibrar, tinha que vestir preto ou branco, sempre cores neutras. Depois namorei o… ah, você não conhece, que me deixava usar a cor que eu quisesse, mas em compensação ele não usava nada: saía pela rua com o peito cabeludo à mostra. Eu tinha tanta raiva que acabava ficando em casa só pra ele não sair daquele jeito. Cansei me negligenciar.

– E eu que pago por isso?

– Eu só quero que você vista essa camisa verde! Fica uma coisa meio latina, eu gosto assim.

– Argh!

– Acho que vou de peruca. O que você acha?

– É… fica uma coisa assim meio ridícula, mas eu gosto.

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Ela falou por um bom tempo sobre toda sua experiência com caras que a impediam de se evidenciar, do sofrimento por não poder usar as roupas que queria, nem o tipo de cabelo que estava na moda. Ele tentava imaginar todas aquelas histórias de uma maneira divertida. Começou a pensar em todas as crises de nervos que ela deveria ter tido, e como ficava engraçada quando nervosa: o rosto deformado pela raiva e pálido como só ela conseguia ter. Segurava o riso de canto. Ela falava, desabafava toda sua mágoa com a falta de cores no seu passado, e como queria viver com ele uma vida diferente.

Sentiu uma vontade louca de tomar a peruca da mão dela, só pra vê-la berrar.

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– Você está me ouvindo?

– Imagino como deve ter sido difícil pra você. Mas essa peruca vai ficar ridícula com essa blusinha florida.

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Foi assunto para mais meia hora de monólogo, enquanto ele viajava em subdimensões do passado constrangedoramente traumatizante que pra ela era motivo para novas experiências, e pra ele motivo de sarro. Ela ia e voltava pelo corredor, parava frente ao espelho e gesticulava. Até que ficava bonita assim, de camisa florida, calcinha de algodão e meias. Tanta mulher preocupada em se arrumar demais – até peruca compra – e ela bonita daquele jeito, quase nua.

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– Não levanto dessa cama hoje se você colocar essa peruca.

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O rosto pálido começava a ficar vermelho. Ele divertia-se mais a cada provocação, vendo-a se desesperar pela falta de argumentos e ser tomada pelo cansaço.

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– Beto. Por-ra! Custa você colocar essa droga de camisa verde?

– Você desiste da peruca?

– Não é justo eu ter que deixar de lado uma vontade tão antiga…

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Delícia vê-la fora de si frente à total calma e serenidade com que ele parecia irredutível.

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Ela se sentou na cama, ficou de cabeça baixa e muda por alguns minutos, nem parecia mais a sua pimentinha.

Assustadoramente, ela se virou jogando os cabelos pra cima e berrou:

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– Eu vou colocar essa droga de peruca e você essa merda de camisa. Agora! Agoraaaa! Ou eu vou sozinha nessa festa! …

…Tá duvidando?

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Com os olhos arregalados, ele foi se arrastando devagar até a beirada da cama, pegou a camisa do chão e vestiu.

Nervosa era engraçada, mas louca ele tinha medo.

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Samantha Abreu

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foto: Ellen von Unwerth

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– Só se for de luz apagada.

– Mas eu quero te ver, vem cá…

– Ver o quê? Você tá louco?

– Eu amo você assim…

– Nem vem! Depois fica andando aí pela rua, olhando pra tudo quanto é rabo de saia. Você pensa que essa mulherada é bonita por debaixo da roupa? Que nada! Podem ser magras, mas é enchimento pra tudo quanto é lado.

– …

– Sabia que tem um sutiã que aumenta o peito? É feito de gel. Isso quer dizer que, mesmo que você apalpe a garota, você nem vai desconfiar que é falso.

– Ah, vem cá…

– Por isso que elas fazem sexo de luz acesa. Quando tiram a roupa não têm nada além de um monte de osso. Isso quando não tem pele caída, porque gordinha quando inventa de emagrecer…  Mas aí, o cara já tá numa arapuca mesmo… o que importa a luz, né?

– Para de falar um pouco, amor.

– Você bem que podia me pagar aquela lipo. Imagina só… agora, eu deixava a luz acesa e, se você quisesse, dançava pra você.

– Dança pra mim?

– Nem a pau! Tô parecendo uma lutadora de sumô!

– Deixa de ser exagerada.

– Exagerada? Aposto que você fica o dia todo imaginando aquelas vacas do escritório peladas. Eu reparo quando tem churrasco e a tal da Dani vai com a menor blusa que tem no armário, só pra se mostrar. E você não tira o olho.

– Do que você tá falando, meu Deus?

– Ah, sem graça! Pensa que eu sou boba?

– ….

– É não tem nem o que dizer mesmo!

– Tenho sim. Apague a luz, querida.

– Tá bom, assim eu quero.

– Apague essa luz porque me deu sono. Vou dormir.

– Mas…  

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Samantha Abreu

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Nem tudo o que reluz…

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foto: Ellen von Unwerth

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Fui lá, de novo, só pra ter certeza. Queria ver se ele olharia quando eu passasse, ou era coisa da minha cabeça.

Passei a primeira vez, ele olhou. Quase morri! Meu Deus! O que é isso?! Passei de novo… Ele continuou me seguindo com os olhos. Não pode ser… alguma coisa está errada. Parei o carro na primeira vaga disponível, quase três quadras à frente da loja. Andei todo esse trecho ajeitando a roupa, treinando caras e bocas pra quando ele viesse falar comigo.

Entrei na loja disfarçando, como quando a gente finge que está passando apressada frente a uma vitrine e vê algo de que está precisando demais, com aquela cara de quem nem acredita que encontrou. Entrei. Ele estava lá, estático e me olhava continuadamente. Isso me deixava cada vez mais eufórica. Continuei olhando as prateleiras, como quem não está mais com pressa, pois achou tudo muito interessante.

Já fazia tanto tempo que eu não ficava com homem nenhum, que nem saberia mais o que dizer. Meu desespero parecia gritante, como se todos que me olhassem soubessem que se tratava de uma solteirona, encalhada e incapaz de seduzir alguém. Lembrei de quando minha avó disse, em um dos seus conselhos, que a maneira como uma mulher se porta frente a um homem diz a ele tudo o que esperar dela, mostra suas reais intenções. Isso me causou até medo, já que as minhas não eram as melhores.

Eu ficava olhando de canto, para ter certeza de que ele permanecia ali, ao invés de sair correndo ao ver que eu estava me aproximando.

Dei-lhe um sorriso e nesse momento – nesse exato momento – ele saiu detrás do balcão e começou a vir em minha direção.

Ai meu Deus! Ai Meu Deus, não fui capaz de passar um batom sequer. Essa blusa horrorosa, nem um decote. Puta que pariu, hein Sueli!

Ele estava cada vez mais perto. Eu estremeci.

Olá!

Eu, com a cara de abobalhada que só eu consigo ter:

Você está sozinho? … Digo… Você trabalha aqui?

O constrangimento tomou conta da cara dele, quando me soltou a bomba:

Te conheço, não está lembrada? Você não é irmã do Edu? Já fui taaaaantas vezes na sua casa… Eu e ele saíamos juntos, há muito tempo atrás.

Ahhh!Ahhhh! Não acredito que fiz isso! Não! Não!

Sim! É mesmo! Agora me lembro… – eu quero um buraco pra enterrar minha cabeça e deixá-la ser comida por formigas canibais. – quando vai aparecer lá novamente, pra uma visita?

Então Sú (ele me chamou de Sú!) – eu e seu irmão estamos brigados, tentei procurá-lo, mas ele não me perdoa, menina!

A tortura era muito grande. Eu tinha que sair correndo dali. E o mais rápido possível.

Olhei para o relógio:

Olha, tenho que ir. Aparece lá… ele muda de idéia, é sempre assim!

Saí apressada sem nem lhe dar o direito de resposta. Pra mim bastava.

Além de encalhada, fracassada e ridícula, agora dei pra flertar na rua com namorados do meu irmão.

O que mais me resta, meu Deus?

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Samantha Abreu  

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