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Archive for fevereiro \12\UTC 2008

Sweet Pimenta

ellen_von_unwerth-6.jpg
foto de Ellen von Unwerth
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– E essa aqui?

– Ah não, essa não combina com a minha.

– Ah, meu Deus! Pode parar!

– É que uma vez namorei um cara que só usava cores fortes. Aí eu, pra equilibrar, tinha que vestir preto ou branco, sempre cores neutras. Depois namorei o… ah, você não conhece, que me deixava usar a cor que eu quisesse, mas em compensação ele não usava nada: saía pela rua com o peito cabeludo à mostra. Eu tinha tanta raiva que acabava ficando em casa só pra ele não sair daquele jeito. Cansei me negligenciar.

– E eu que pago por isso?

– Eu só quero que você vista essa camisa verde! Fica uma coisa meio latina, eu gosto assim.

– Argh!

– Acho que vou de peruca. O que você acha?

– É… fica uma coisa assim meio ridícula, mas eu gosto.

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Ela falou por um bom tempo sobre toda sua experiência com caras que a impediam de se evidenciar, do sofrimento por não poder usar as roupas que queria, nem o tipo de cabelo que estava na moda. Ele tentava imaginar todas aquelas histórias de uma maneira divertida. Começou a pensar em todas as crises de nervos que ela deveria ter tido, e como ficava engraçada quando nervosa: o rosto deformado pela raiva e pálido como só ela conseguia ter. Segurava o riso de canto. Ela falava, desabafava toda sua mágoa com a falta de cores no seu passado, e como queria viver com ele uma vida diferente.

Sentiu uma vontade louca de tomar a peruca da mão dela, só pra vê-la berrar.

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– Você está me ouvindo?

– Imagino como deve ter sido difícil pra você. Mas essa peruca vai ficar ridícula com essa blusinha florida.

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Foi assunto para mais meia hora de monólogo, enquanto ele viajava em subdimensões do passado constrangedoramente traumatizante que pra ela era motivo para novas experiências, e pra ele motivo de sarro. Ela ia e voltava pelo corredor, parava frente ao espelho e gesticulava. Até que ficava bonita assim, de camisa florida, calcinha de algodão e meias. Tanta mulher preocupada em se arrumar demais – até peruca compra – e ela bonita daquele jeito, quase nua.

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– Não levanto dessa cama hoje se você colocar essa peruca.

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O rosto pálido começava a ficar vermelho. Ele divertia-se mais a cada provocação, vendo-a se desesperar pela falta de argumentos e ser tomada pelo cansaço.

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– Beto. Por-ra! Custa você colocar essa droga de camisa verde?

– Você desiste da peruca?

– Não é justo eu ter que deixar de lado uma vontade tão antiga…

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Delícia vê-la fora de si frente à total calma e serenidade com que ele parecia irredutível.

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Ela se sentou na cama, ficou de cabeça baixa e muda por alguns minutos, nem parecia mais a sua pimentinha.

Assustadoramente, ela se virou jogando os cabelos pra cima e berrou:

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– Eu vou colocar essa droga de peruca e você essa merda de camisa. Agora! Agoraaaa! Ou eu vou sozinha nessa festa! …

…Tá duvidando?

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Com os olhos arregalados, ele foi se arrastando devagar até a beirada da cama, pegou a camisa do chão e vestiu.

Nervosa era engraçada, mas louca ele tinha medo.

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Samantha Abreu

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