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Mudamos!

Queridos!

as Descontroladas mudaram de endereço.

O divã, agora, é outro.

Corram aqui ó:

http://mulheressobdescontrole.blogspot.com/

Esperamos vocês lá.

Beijos!

Sweet Pimenta

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foto de Ellen von Unwerth
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– E essa aqui?

– Ah não, essa não combina com a minha.

– Ah, meu Deus! Pode parar!

– É que uma vez namorei um cara que só usava cores fortes. Aí eu, pra equilibrar, tinha que vestir preto ou branco, sempre cores neutras. Depois namorei o… ah, você não conhece, que me deixava usar a cor que eu quisesse, mas em compensação ele não usava nada: saía pela rua com o peito cabeludo à mostra. Eu tinha tanta raiva que acabava ficando em casa só pra ele não sair daquele jeito. Cansei me negligenciar.

– E eu que pago por isso?

– Eu só quero que você vista essa camisa verde! Fica uma coisa meio latina, eu gosto assim.

– Argh!

– Acho que vou de peruca. O que você acha?

– É… fica uma coisa assim meio ridícula, mas eu gosto.

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Ela falou por um bom tempo sobre toda sua experiência com caras que a impediam de se evidenciar, do sofrimento por não poder usar as roupas que queria, nem o tipo de cabelo que estava na moda. Ele tentava imaginar todas aquelas histórias de uma maneira divertida. Começou a pensar em todas as crises de nervos que ela deveria ter tido, e como ficava engraçada quando nervosa: o rosto deformado pela raiva e pálido como só ela conseguia ter. Segurava o riso de canto. Ela falava, desabafava toda sua mágoa com a falta de cores no seu passado, e como queria viver com ele uma vida diferente.

Sentiu uma vontade louca de tomar a peruca da mão dela, só pra vê-la berrar.

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– Você está me ouvindo?

– Imagino como deve ter sido difícil pra você. Mas essa peruca vai ficar ridícula com essa blusinha florida.

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Foi assunto para mais meia hora de monólogo, enquanto ele viajava em subdimensões do passado constrangedoramente traumatizante que pra ela era motivo para novas experiências, e pra ele motivo de sarro. Ela ia e voltava pelo corredor, parava frente ao espelho e gesticulava. Até que ficava bonita assim, de camisa florida, calcinha de algodão e meias. Tanta mulher preocupada em se arrumar demais – até peruca compra – e ela bonita daquele jeito, quase nua.

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– Não levanto dessa cama hoje se você colocar essa peruca.

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O rosto pálido começava a ficar vermelho. Ele divertia-se mais a cada provocação, vendo-a se desesperar pela falta de argumentos e ser tomada pelo cansaço.

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– Beto. Por-ra! Custa você colocar essa droga de camisa verde?

– Você desiste da peruca?

– Não é justo eu ter que deixar de lado uma vontade tão antiga…

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Delícia vê-la fora de si frente à total calma e serenidade com que ele parecia irredutível.

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Ela se sentou na cama, ficou de cabeça baixa e muda por alguns minutos, nem parecia mais a sua pimentinha.

Assustadoramente, ela se virou jogando os cabelos pra cima e berrou:

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– Eu vou colocar essa droga de peruca e você essa merda de camisa. Agora! Agoraaaa! Ou eu vou sozinha nessa festa! …

…Tá duvidando?

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Com os olhos arregalados, ele foi se arrastando devagar até a beirada da cama, pegou a camisa do chão e vestiu.

Nervosa era engraçada, mas louca ele tinha medo.

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Samantha Abreu

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foto: Ellen von Unwerth
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– Ah, menina, você viu como elas são legais?! Eu a-do-ro aquele salão.

– Humm…

– Só tem mulher bonita, rica, charmosa. Pessoas que nos fazem bem ter por perto, sabe, prima? Eu te disse, não disse? Penso em te trazer aqui des-de quando você disse que viria. Eu sa-bia que você ia amar. Dá pra gente marcar de novo pra semana que vem. Aí, você faz as unhas.

– Mas eu mesma prefiro…

– Nem-pen-se nisso! Uma mulher de glamour ja-mais pinta as próprias unhas. Salões de beleza foram feitos pa-ra isso. Manicuras estudaram a-nos e a-nos pra tirar cutículas como as minhas e daquelas mulheres que você conheceu lá.

– Beth, mas minha vida não é…

– É-sim. Pense positivo, Lucinha. É-sim. Você é uma mulher rica, chique, e pre-ci-sa freqüentar salões daquele nível. São pessoas de classe e requinte. Vão te convidar pra festas ma-ra-vi-lho-sas.

– Ah, tá. Agora fiquei muuuito interessada. Ah, por favor, Beth!

– Oras! Quem sabe você conhece um suuu-per cara. Lindo, educado e com muita grana pra te comprar jóias e roupas.

– Grana pra ter estudado também, né? Porque, pelo amor de Deus, ô mulherada burra e vazia, hein!

– Você não sabe de-na-da, prima. Todas estudaram fora.

– Sei… gastaram grana lá fora, você quer dizer.

– Que pensamento de po-bre!

– Pá-ra de falar pausado comigo. Isso me ir-ri-ta.

– Tudo te ir-ri-ta. Até tirar a sobrancelha te irrita.

– Não, o que me irritou foi aquele cara ficar falando sem parar em cima da minha cara. Falando, falando, falando.

– Ele é um lu-xo! Até Gretchen depila com ele.

– À puta-que-pariu aquela Konga. Era só trocar o K pelo E-ME e ela poderia ser a mulher barbada!

– Genteeemm!

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.Samantha Abreu 

Sub-Missão

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foto: Ellen von Unwerth
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Sou mulher submissa como minha mãe, minha avó e todas as minhas antepassadas. Tradição é tudo, gente! Detesto mulheres que inventam de querer trabalhar fora e conquistar o mundo. Essa de querer pagar as próprias contas serve pra mulher que nunca experimentou o que é depender de um homem. Homem de verdade, estou dizendo, hein.

Arnaldo é meu homem de verdade. Paga minhas calcinhas de lycra, meus cremes da Avon e em todo aniversário ele me dá um presente caro. Ano passado ganhei uma máquina de fazer pão. Ele pensa tanto em mim que sempre procura facilitar meu esforço. Por isso, quando ele volta do trabalho estou sempre cheirosa e preparada para recebê-lo, de janta posta e prato feito. Sou o orgulho da minha família. Corro o dia todo pra deixar tudo do jeito que ele gosta e as almofadas prontas para aconchegá-lo no sofá, depois de um cansativo dia de trabalho. Coitado, ele chega sempre exausto!

Não tenho do que reclamar. Acordo todos os dias bem cedo, antes do Arnaldo, para preparar o café da manhã. Ele não pode sair sem comer, de jeito nenhum! Logo que ele vai trabalhar, eu inicio os afazeres da casa, começando por lavar as roupas. No tanque, obviamente. Prefiro lavá-las a mão para que não esgarcem ou estraguem os colarinhos das camisas do meu marido, que é sempre tão caprichoso na forma como se veste.

Quando as crianças acordam, ajudo-as com as tarefas da escola, pois o Arnaldo não aceita que elas tenham nota baixa. Deus me livre disso acontecer, Arnaldo me mata! Então fazemos juntos os deveres, pacientemente. Depois, faço o almoço, elas comem e vão para a escola. Passo o resto do dia atarefada com a limpeza e com a faxina. Fico até emocionada quando falo disso!

Ao final da tarde, quando as crianças voltam, me apresso em arrumá-las para que não atrapalhem o Arnaldo. Ele detesta esperar para tomar banho. Troco as toalhas, pois a dele tem que ser lavada e macia, todos os dias. Meu marido é tão asseado! Fico até orgulhosa! Só é uma pena porque depois que ele chega eu não posso ver televisão. Ele reclama que eu converso durante os programas e o atrapalho. Por isso, tenho que ficar no quarto enquanto ele se atualiza com os jornais. Mas é bom porque me adianto em algumas costuras, bordados e já o espero na cama para nossa noite de amor.

E assim me sinto mulher. Por inteiro.

Arnaldo, sim, é homem de verdade! Não é desses que permitem mulher independente, não. Por isso que essa mulherada está aí, perdida, com a cabeça virada.

Não se faz mais homens como antigamente. Homens que mandavam na gente, simplesmente.

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Samantha Abreu

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Drew Barrymore, por Ellen von Unwerth

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Nem o direito a não querer mudar de vida a gente tem. Quantas mulheres já tentaram, persistiram e, quantas, meu Deus, fracassaram? Estas histórias, as revistas não mostram. Ou seja, essas drogas de revistas não servem nem pra nos colocar no nosso lugar. Elas deviam dizer: “Você, querida gorducha, se toca e desiste. Vá se matar de comer doce que ganha mais”. Não, nada disso. Mostram aquelas magras filhas da mãe, que perderam milhões de quilos tomando sopa, mais dezenas de celulites em roupas plásticas e outro monte de gordura na privada, metendo o dedo na goela.

Sempre fiz de tudo para me dar bem acreditando e vendo o que as pessoas são além da aparência. Menosprezo ninguém merece! O desgraçado do meu marido chega toda semana com uma dessas porcarias de revista, repleta de dicas e receitas, para eu emagrecer. Não posso ser assim? Ameaçou até sair de casa e disse que eu preciso me cuidar mais e me valorizar. Será que eu não posso, pura e simplesmente, dar mais importância a meu cérebro do que a essa droga de barriga retíssima?

Agora, vem cá. Como é que eu, com essa idade, vou jogar um casamento de tantos anos fora? Não teve jeito. Faz uma semana que estou correndo lá na quadra do prédio. E, o pior de tudo, meu Deus, são aquelas crianças brincando, correndo atrás de mim, cheias de gracinhas, elas quase me fazem tropeçar. Juro que, se eu cair, derrubo uma delas e ainda rolo por cima. Vai até ficar grudada no chão, a peste. Sem mencionar os cachorros latindo, felizes da vida, como se eu estivesse ali só para brincar com eles. Quero morrer!

Arquitetei um plano para provar àquele traste como essas revistas são mentirosas e manipuladoras. Todos os dias, depois da minha corrida diária, tomo banho calmamente e me sento tranqüila em meu sofá diante da TV. Desenterro todos os meus filmes de romance antigos. Estou aproveitando para rever todos eles. Hoje, pela vigésima vez, assisti “Tarde demais para esquecer”. Isso me dá tanto apetite emocional que devoro todos os doces, chocolates e sorvetes que meu bom salário me permite comprar. Bom salário, aliás, conseguido por conta do meu cérebro, e não da minha bunda!

Já engordei sete quilos em quase um mês.

Vamos ver quem ganha: eu ou a droga da Boa Forma!

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Samantha Abreu  

Última Chance

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Foto: Ellen von Unwerth

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         Não senhor, não quero deitar nesse sofá. Prefiro assim, em pé. E também, tem outra: o que quero falar é coisa rápida. Pá-Puf. O senhor me diga logo o que significa isso que estou sentindo porque, senão, eu mato aquele desgraçado. Deu pra entender, doutor? A vida daquele crápula está em suas mãos.

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         O quê? Eu nunca fiz isso. Ele inventa essa história todas as vezes que alguém pergunta sobre minhas atitudes. Olhe pra mim, doutor, o senhor acha que eu, uma mulher séria, ia fazer escândalo no meio da rua? Só por que ele resolveu, de um dia para o outro, que não quer mais a vida comigo? Não fiz isso não! Mentira dele. Se bem que não seria nada mal fazê-lo passar vergonha uma vez na vida, pra ver se ele toma um pouco na cara.

         Ah, doutor! Ele fala isso pra todo mundo! Aposto que disse também que eu quebrei as janelas da nova casa onde ele está morando, não disse? Está vendo, eu sabia! Ele conta só a parte que interessa. Veja, não foi bem assim. Eu só joguei aquela pedra porque vi uma sombra lá dentro e tenho certeza que era de outra mulher. Aposto que era!

         Como assim “o que tem demais”? Homem que é meu eu não divido não, doutor! É, a gente já estava separado sim, mas ainda existia amor. Só da minha parte? Foi ele que disse isso para o senhor, doutor? Ele vai continuar negando que me ama? Ah, ele pensa que engana quem? O senhor acreditou? Que ótimo! E eu vou confiar em quem agora?

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       Bem, esse papo não vai dar em nada. Eu lhe dei a chance de salvar aquele cretino. Já que ele não admite, vou cortar a língua e o pinto daquele filho da mãe. Depois disso, quero ver se ele continua negando que me ama. E quero ver se vai conseguir amar outra.

         E a culpa vai ser sua, doutor.

         Passar bem.

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Samantha Abreu

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Fernanda Torres no filme Casa de Areia

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Bom, doutor, é o seguinte: amo a um, vivo com outro e desejo um terceiro. Isso tudo me bloqueou e eu não consigo mais trabalhar.

Há cinco anos, todos os dias, escrevo horóscopos no jornal. Não, não sou astróloga, vidente, mãe de santo, nada disso. Gosto mesmo é de inventar histórias e imaginar a cara de quem as está lendo. Então, um dia, escrevo uma mensagem triste e, no outro, uma mais alegre, assim o leitor valorizará mais os bons momentos. É isso que acontece comigo e, acho, com todo mundo, né?

Eu amo tanto o Aristides, doutor, mas tanto, tanto, que a gente não sabe conviver. Somos como cão e gato e, ainda por cima, fica todo mundo falando que um dia a gente casa! Casa, nada! E, se casar, é bem capaz de um matar o outro. Ele agora resolveu fazer que não me vê. Deve ser porque descobri que ele estava de caso com uma sambista lá da vila. Aí, o senhor acredita que eu escrevi no signo dela que seria traída e ainda mandei o jornal de presente? No dele — que é ariano, o desgraçado — disse que cometeria uma grave traição por ser incapaz de ser fiel. Ah! Quando ela leu as previsões, casou as informações e mandou o Aristides embora. Agora, ele acha que a culpa foi minha! Quem manda querer me fazer de besta e arrumar uma mulher que crê em horóscopo?!

Com o Genival, é diferente. Ele faz tudo o que eu quero, me enche de mimo e agüenta as bordoadas. É isso mesmo, doutor, não sou mulher de dar mole pra homem não. Toda mulher tem mais é que judiar do cabra, quando tem oportunidade. Não tenho culpa do trouxa da vez ser o Genival, coitado! Minto tanto pra ele que, às vezes, até me esqueço do que inventei e ele percebe. Mas sempre dou um jeito de contornar a situação e invento outra história melhor, ele acaba se sentindo mal por ser tão ciumento e desconfiar de uma mulher direita como eu. Também escrevo umas coisas legais no signo dele, principalmente quando percebo que ele anda meio desconfiado. Peço que confie na pessoa amada e essas baboseiras todas. O mosca-morta nem imagina que sou eu quem escreve tudo aquilo, e, como não gosta muito dessas previsões (tem vergonha, só porque nasceu Touro, coitado, né?!), só lê o horóscopo quando insisto muito.

Quando arrumei esse emprego, o Aristides foi comigo, a gente estava nos bons tempos do começo, e ele me recomendou que não contasse a ninguém, senão iam saber que é tudo mentira. Todo mundo pensa que eu trabalho no telemarketing, sabe? Só o traste do Aristides sabe a verdade.

Ah, doutor, o pior de tudo é que o Paulão apareceu. Ele faz parte do meu passado, entende? Namoramos quando eu era meninota, tinha 18 anos, e o Paulão, 30. Ele me fez mulher, desabrochei pra vida e agora, depois de dez anos, a tentação reapareceu! Tenho dó é do Genival, porque o coitado tá levando uns chifres na testa. Mas não consigo resistir ao Paulão, doutor, mulher nenhuma consegue, não há meio. O homem é grande, bonito, cheiroso, Ave Maria! Dei até pra escrever no horóscopo dele, que é escorpião, que ele vai voltar com um antigo amor. Nem sei se ele lê ou acredita nessas coisas, mas vai que… né?!

Não é que ele me mandou de presente uma calcinha de renda vermelha? Genival quase enfartou! Tive que dizer que era brincadeira das meninas lá do call center. O Genival queria que eu a usasse com ele! Como?! Antes do Paulão, doutor?! Tive que sair com Paulão de emergência, numa terça-feira à tarde, pra poder usar a calcinha primeiro com ele. Meu Deus! Fiquei boazuda com aquela calcinha, o senhor precisava ver! O azar é do Aristides, aquela mula que inventou de empacar e não me dar bola!

Então, esse é o motivo pra eu estar aqui. O único jeito de resolver tudo isso é sair desse emprego. Assim, continuo com meus homens, fico mais concentrada neles e não preciso ficar dando conselho pra essa mulherada desocupada, que fica lendo horóscopo no jornal.

Agora, doutor, veja aí minhas contas que vou embora. Não quero mais trabalhar aqui não, até porque o Genival não quer que eu ande com as meninas desse lugar, por causa da história da calcinha vermelha. Ele me disse que vai me pagar uma mesada só pra eu cuidar da casa! O Paulão não se agüenta de tanta alegria.

O Aristides, aquele ordinário, tá com ódio de mim e não quer mais que eu escreva horóscopos, senão ele não arruma mais namorada.

Tá vendo, doutor, como meu problema é esse emprego?!

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Samantha Abreu