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Archive for setembro \29\UTC 2007

Nem tudo o que reluz…

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foto: Ellen von Unwerth

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Fui lá, de novo, só pra ter certeza. Queria ver se ele olharia quando eu passasse, ou era coisa da minha cabeça.

Passei a primeira vez, ele olhou. Quase morri! Meu Deus! O que é isso?! Passei de novo… Ele continuou me seguindo com os olhos. Não pode ser… alguma coisa está errada. Parei o carro na primeira vaga disponível, quase três quadras à frente da loja. Andei todo esse trecho ajeitando a roupa, treinando caras e bocas pra quando ele viesse falar comigo.

Entrei na loja disfarçando, como quando a gente finge que está passando apressada frente a uma vitrine e vê algo de que está precisando demais, com aquela cara de quem nem acredita que encontrou. Entrei. Ele estava lá, estático e me olhava continuadamente. Isso me deixava cada vez mais eufórica. Continuei olhando as prateleiras, como quem não está mais com pressa, pois achou tudo muito interessante.

Já fazia tanto tempo que eu não ficava com homem nenhum, que nem saberia mais o que dizer. Meu desespero parecia gritante, como se todos que me olhassem soubessem que se tratava de uma solteirona, encalhada e incapaz de seduzir alguém. Lembrei de quando minha avó disse, em um dos seus conselhos, que a maneira como uma mulher se porta frente a um homem diz a ele tudo o que esperar dela, mostra suas reais intenções. Isso me causou até medo, já que as minhas não eram as melhores.

Eu ficava olhando de canto, para ter certeza de que ele permanecia ali, ao invés de sair correndo ao ver que eu estava me aproximando.

Dei-lhe um sorriso e nesse momento – nesse exato momento – ele saiu detrás do balcão e começou a vir em minha direção.

Ai meu Deus! Ai Meu Deus, não fui capaz de passar um batom sequer. Essa blusa horrorosa, nem um decote. Puta que pariu, hein Sueli!

Ele estava cada vez mais perto. Eu estremeci.

Olá!

Eu, com a cara de abobalhada que só eu consigo ter:

Você está sozinho? … Digo… Você trabalha aqui?

O constrangimento tomou conta da cara dele, quando me soltou a bomba:

Te conheço, não está lembrada? Você não é irmã do Edu? Já fui taaaaantas vezes na sua casa… Eu e ele saíamos juntos, há muito tempo atrás.

Ahhh!Ahhhh! Não acredito que fiz isso! Não! Não!

Sim! É mesmo! Agora me lembro… – eu quero um buraco pra enterrar minha cabeça e deixá-la ser comida por formigas canibais. – quando vai aparecer lá novamente, pra uma visita?

Então Sú (ele me chamou de Sú!) – eu e seu irmão estamos brigados, tentei procurá-lo, mas ele não me perdoa, menina!

A tortura era muito grande. Eu tinha que sair correndo dali. E o mais rápido possível.

Olhei para o relógio:

Olha, tenho que ir. Aparece lá… ele muda de idéia, é sempre assim!

Saí apressada sem nem lhe dar o direito de resposta. Pra mim bastava.

Além de encalhada, fracassada e ridícula, agora dei pra flertar na rua com namorados do meu irmão.

O que mais me resta, meu Deus?

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Samantha Abreu  

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Câmbio Negro

Foto: Nina Simone

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Foi tudo por dinheiro. Meu Deus, o que a gente não faz por dinheiro?!

Já fiz de tudo na vida e nunca fui mulher e negar serviço! Nunca! Já fui faxineira, secretária, manicura e nunca me envergonhei de nada, não. Mas dessa vez foi demais.

O moço chegou e disse que eu tinha o perfil que ele procurava: tinha rosto marcado, de mulher sofrida e guerreira. E eu ia ter cara de quê, com essa desgraça de vida? Ficou me olhando mais de meia hora, de cima abaixo, analisando e pensando no que faria comigo. E eu nem sabia do que se tratava. Mas ele foi esperto, falou logo de valores antes de tarefas.

Agora, vem cá… eu aqui, nessa miséria, matando um leão por dia para fazer esses meninos crescerem, vou lá negar algum dinheiro? E era mais do que eu ganhava em quase um ano! Enquanto ele falava, eu até já pensava na reforma aqui na casa. Um puxadinho no fundo, uma área de serviço… Eu viajava tão longe, que nem prestava devida atenção às explicações do moço. Concordei, fosse lá o que fosse.

Era coisa de artista, peça de teatro, sei lá o quê. Quando fui ao primeiro ensaio, tinha até a tal da Maria Bethânia. O lugar era tão grande, que me deu medo de assombração. Ela cantava: “quem me pariu foi o ventre de um navio, quem me ouviu foi o vento vazio…”.

Lembrei de tanta coisa enquanto aquela voz fazia eco, que sentia calafrios de tristeza e melancolia. O moço me explicou que eu seria uma negra trazida em um navio negreiro. Mas gente, eu nunca tinha andado de navio! Fingi que entendia, enquanto ele falava de cenas, de atos e de milhões de coisas que eu nunca tinha ouvido. Minha vontade era de sair correndo de lá.

O negócio era o seguinte: eu seria uma negra transportada nos tais navios, que optaria pela alegria do samba e da alfabetização. Tinha uma parte em que eu tinha que cantar: “Vou aprender a ler, pra ensinar meus camaradas…”.

Ah, quer saber, larguei tudo e fui embora.

Como é que é? Ia ter que fingir a alegria de uma negra dentro de um navio negreiro? Isso já era demais. Sei bem tudo o que minha raça sofreu. Agüentar fingimento enquanto um mundarel de gente me assistia, com cara de encanto pela desgraça dos outros? Era isso que ele queria que fizesse: mostrasse a alegria de ser uma desgraçada na vida.

Já representei quase tudo, mas com hipocrisia não! Pelo amor de Deus!

E ainda por cima, eu ia ter que tirar a roupa.

Ah moço, a única roupa que tiro é a do varal!

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Samantha Abreu

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Inconstância Feminina

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foto: Katarina Sokolova

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Eu já sacava logo: não vai dar certo não…

O cara usava meia branca, com calça jeans e sapato social. Eu sentia aflição todas as vezes que ele aparecia. Tinha um papo legal, sabia falar de música e cinema e isso era bom, mas quando eu olhava para o pé, queria morrer. Não deu pra continuar. Cheguei pra ele e disse: “Beto, não estou preparada para algo mais, e preciso de um momento pra mim.” Ele ficou com cara de tacho, parado por uns 2 minutos me olhando, sem saber o que dizer. Mas eu só fui sincera! Sentia que não ia rolar…

Aí, conheci o Cadú e cai de amores. Era bonito e engraçado, do jeito que eu queria. Saímos umas três vezes e ele disse que queria namorar. Foi nesse momento que percebi. Ele falava muita coisa errada, até me mandou uma mensagem dizendo que gostava do meu ‘geito’, com g. Pensei: “isso é preconceito lingüístico, o cara gosta de você, sua boba!”. Mas eu tinha vontade de sair correndo todas as vezes que ele abria a boca. Não tinha mais assunto para bate papos, não suportava mais a convivência, nem por algumas horas. Chamei-o em casa e soltei: “acho que não temos afinidades, somos muito diferentes e é melhor deixarmos como está para não sofrermos depois”. Ele foi um pouco rude, dizendo que eu era muito fresca e estava querendo escolher demais. Disse até que eu nem era tão especial assim e, por isso, devia ser mais humilde!

Meu Deus, e o meu direito de escolha?

Agora, a desgraça aconteceu, mesmo, quando me envolvi com o Arnaldo. Aí entrei em crise. Ele me parecia tão perfeito que até tive medo. Tinha estilo, personalidade e sagacidade. Minhas qualidades prediletas. E esse foi o problema. A cada dia que passava, eu notava mais aproximação entre a gente e ia me apegando mais. Isso era aterrorizador para uma mulher como eu. Além de adorar variedade, eu não suportaria atrelar minha vida a alguém e ter que deixar toda minha comodidade e liberdade da vida avulsa.

Ficamos juntos alguns meses e, quando percebi que estava incriminada até o pescoço, sentei ao lado dele e disse: “Arnaldo, quero dizer que gosto muito de você. Mas, tenho uma visão muito prática e vejo longe em meus relacionamentos. Sinto que não vai dar certo, porque somos parecidos demais e não quero…”. Ele me interrompeu com um intenso ar de ironia: “Minha filha, sem essa. Você não sabe de nada e, me faça um favor, vai estudar astrologia… seu negócio é bola de cristal”. Deu-me as costas e, dessa vez, eu é que fiquei estática, com a boca aberta, pasma.

Sabe de uma coisa? Os homens não respeitam a gente. Não temos direito de sermos exigentes, de sermos seletivas e, muito menos, de dizermos a verdade…

Do jeito como ele falou, até parece que o problema é comigo!

Samantha Abreu

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foto: Ellen Von Unwerth

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 Meu nome é Berenice. Estou há dois dias sem seguí-lo.

Terça feira, depois que saí daqui, não resisti e fui direto ao trabalho dele. Não entrei. De jeito nenhum eu faria isso! Fiquei olhando de longe. Ele saiu depois de uns 20 minutos e entrou no carro. Preparei-me. Óculos escuros e a peruca nova, loira, porque a ruiva ele já conhecia e estava muito manjada.

Fui atrás, queria ver tudo.

Ele passou no supermercado e comprou algumas coisas que não consegui identificar. Tenho muita raiva de supermercados com sacolas coloridas! Passou na vídeo locadora e ficou quase uma hora lá dentro.

De repente, apareceu na janela do meu carro:

De novo, Berê?

Tentei explicar que era uma surpresa, mas foi em vão. Ele me jogou na cara todo o meu passado comprometedor, as arruaças que já fiz e as confusões que já criei.

Pediu-me para procurar um especialista e disse até que sou psicótica. Se fosse mesmo matava aquele desgraçado.

Ele pensa que eu não sei que mantém a amante em algum desses flats universitários no centro da cidade. Um dia vou descobrir.

Dessa vez ele riu da minha cara. Comecei a achar estranho porque antes ele brigava, tentava me convencer. Mas… nem tentar mentir? Aí tem! Agora tenho certeza. E pensando bem, analisando friamente, vejo que ele pode estar usando uma estratégia maligna para me enlouquecer. Pode estar se fazendo de desentendido para que eu, ingenuamente, pense que a louca, paranóica e ciumenta sou eu. É isso mesmo. Ninguém muda de comportamento assim, do nada.

É mais uma armadilha dessa farsa chamada casamento. Meu Deus! Como não percebi isso antes?!

Mas hoje eu pego! Hoje dou o flagra. Ele que me aguarde!

 
Samantha Abreu

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